A vez da telemedicina

Com todos os cuidados, a tecnologia será importante aliada de pacientes e médicos para suporte de tratamentos

Por Maria Augusta Bernardini, Diretora Médica da Astrazeneca

Com a declaração de pandemia do novo coronavírus, anunciada pela Organização Mundial da Saúde em fevereiro deste ano, alguns recursos, antes inimagináveis, começaram a ser vistos como ferramentas valio­sas para o cuidado contínuo do paciente. Uma delas é a telemedicina, regulamentada pelo Ministério da Saúde em caráter excepcional e tem­porário para o atendimento pré-clínico, suporte assistencial, consulta, monitoramento e diagnóstico a distância.

Também conhecida como consulta online, a telemedicina tem o propósito de aperfeiçoar o atendimento médico e a saúde do paciente. A modalidade já vinha sendo usada para possibilitar a troca de infor­mação entre os profissionais da área. Além disso, possibilita o compar­tilhamento de pareceres e opiniões a distância – tudo em tempo real. Essa ferramenta pode ainda ampliar o acesso aos serviços, evitando as aglomerações e deslocamentos.

Neste momento de isolamento social, o mecanismo se torna ainda mais valioso. A importância se dá muito mais pelo acompanhamento e manutenção de tratamento contínuo do que pelo cumprimento de consultas previamente agendadas. Esse bom manejo da saúde é um dos principais desafios da atualidade. Com essa boa administração de recursos, é possível conservar a qualidade de vida do paciente crônico, com diabetes, por exemplo. Vale citar diabetes, porque vem se mos­trando um fator de risco para casos mais graves do vírus.

É importante ressaltar a diferença entre a telemedicina e a telessaú­de, que engloba basicamente todos os procedimentos de promoção de saúde, como é o caso de aplicativos que promovem o bem-estar. Con­tudo, ter acesso ao médico de forma remota pode ter um real impacto na manutenção da vida desse paciente. Precisamos lembrar que, em meio à pandemia, ainda temos os pacientes que estão sob tratamen­to contra o câncer, seja oral ou infusional, e que não pode ser in­terrompido. Há ainda pacientes com doenças respiratórias, como a asma, que também devem manter a terapia continuada, não só para estarem mais seguros, mas também para se certificarem do seu bem-estar em um momento pós-Covid-19.

A novidade ainda está sendo avaliada pelos profissionais de saúde, que buscam pela forma mais eficiente e segura para o trato com o pacien­te, mas a forma de contato pode ser otimizada.

Em um futuro mais próximo do que imagina­mos, a telemedicina pode ser uma forma muito válida de minimizar o gargalo de acesso da saúde. Quando feita por meio de parcerias sustentáveis, pode levar a experiência de grandes centros de referência para os mais diferentes cantos do país. Claro, os novos recursos serão ferramentas pode­rosas para os médicos. Mas o bem-estar do pa­ciente será sempre prioridade.

astrazeneca.com.br

Banco aberto

Open Banking vai juntar tradição e inovação para criar um novo mercado


Por Fernando Iodice, vice-presidente do grupo Red Ventures no Brasil

Apesar das turbulências causadas pela pandemia do novo coronavírus, temos uma boa notícia, ao menos para as fintechs do País. Trata-se do tão aguardado Open Banking, regulamentado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN) pelo Banco Central (BACEN). Com implementação faseada, o modelo tem início em 30 de novembro deste ano, com conclusão prevista para outubro de 2021. Mas o que isso significa?

Na prática, significa que existe um novo movimento que pode acelerar integrações entre as sólidas instituições bancárias e empresas mais jovens que têm construído aplicações inovadoras usando alta tecnologia. Compartilhar informações entre instituições passa a ser uma decisão do cliente, permitindo, assim, uma competição saudável, ao mesmo tempo que gera mais valor, por meio do uso de tecnologia e experiências inovadoras.

Para o cidadão comum, trocar de banco poderá ficar mais fácil, bem como escolher quais produtos de quais empresas ele quer adquirir. Em um momento em que se fala muito de economia compartilhada e plataformas de streaming, faz sentido que a vida financeira também possa ter opções de produtos variadas e descentralizadas, com escolhas a um “clique”.

O movimento faz parte da inovação do setor bancário, mas não é exatamente novidade. Desde a criação do The Open Banking Working Group, em 2015, o Open Banking ganhou corpo e abrilhantou os olhos daqueles que sonham com processos bancários mais ágeis e uniformes, além da possibilidade de aumentar a venda de produtos a partir do uso de APIs (Interface de Programação de Aplicações, do inglês Application Programming Interface), sigla que abre portas no mundo digital e é imprescindível para que a mágica descrita aqui aconteça.

Para funcionar, bancos e fintechs precisarão ter uma “camada de tecnologia” padronizada. É aí que mora um dos desafios para os players do mercado. Além das questões técnicas e reforços na segurança, é preciso universalizar o acesso a serviços bancários. Um dos maiores empecilhos para a operação do Open Banking no Brasil é justamente o elevado número de brasileiros sem conta em bancos, situação que afeta boa parte da população.

Segundo dados do Instituto Locomotiva (2019), há 45 milhões de pessoas desbancarizadas no País. É uma parcela relevante, responsável por movimentar R$ 817 bilhões por ano sem possuir conta em banco. Um dos motivos, como consta na pesquisa, é o fato de a população achar mais fácil controlar a vida financeira por meio do dinheiro em espécie. Novos usos para tecnologia devem ajudar a facilitar este controle financeiro, reduzir custos para servir novos clientes e assim ajudar universalizar o acesso a serviços bancários.

As instituições têm também o seu papel na conscientização sobre a variedade de serviços que podem oferecer, que vão além de guardar dinheiro e permitir seu saque. Para isso, a integração entre fintechs e bancos, mais uma vez, faz-se necessária, pois alia tradição à expertise de sugerir aos clientes soluções que se encaixam exatamente em seus perfis. Além disso, parcerias entre negócios, a princípio, antagônicos também podem dar liga.

A maior empresa de telecomunicações do Quênia, Safaricon, por exemplo, lançou em 2007 uma ferramenta para transferência de créditos de celular que passou a funcionar como um banco. O sistema M-Pesa é visto como a solução para os desbancarizados: basta ir a um ponto de varejo e trocar dinheiro em espécie por créditos digitais. Se uma empresa de telecom fez isso sozinha, podemos nos arriscar a imaginar que a ação conjunta a um banco ou fintech iria ainda mais longe. A chave para a adaptação ao Open Banking – e ao futuro – está então na integração a partir da construção de parcerias inteligentes

Resiliência de cada dia

A capacidade de adaptação é decisiva para o nosso sucesso

Por Alexandre Velilla Garcia, CEO do Cel.Lep e sócio-fundador da Valor Real Construções

O que seria de nós sem a capacidade de nos recompor e continuar fortalecidos diante dos desafios e obstáculos diários? Ao longo da vida, nos deparamos com uma série de situações, positivas e negativas, e precisamos adquirir força e demonstrar maturidade para delas extrairmos lições. Se, no plano pessoal, isso é muito importante, no ambiente de trabalho torna-se decisivo. A resiliência pode determinar o sucesso ou não de uma trajetória profissional.

Faço esse destaque não por acaso. De acordo com um estudo desenvolvido na Grã-Bretanha com funcionários de diferentes empresas, foi constatado que, para 75% deles, as políticas de seus ambientes profissionais e a necessidade de gerenciar pessoas difíceis eram os fatores que mais exigiam resiliência. Ou seja: os desafios do cotidiano corporativo requerem um grande quinhão de nossa inteligência emocional.

Sendo assim, o que um líder precisa fazer para acumular altos níveis de resiliência e ser capaz de conduzir o futuro de uma organização? Não é fácil comandar pessoas com diferentes culturas, personalidades e anseios. Tampouco enfrentar as cobranças de diferentes frentes (consumidores, colaboradores, stakeholders). Há ainda as inconstâncias da economia. Ao analisar estudos de especialistas e minha trajetória profissional, cheguei a cinco atitudes que considero indispensáveis.

1 – Entenda seu estilo de liderança e perceba o que é necessário mudar. Conheça-te a ti mesmo. O conselho advindo dos filósofos da Grécia Antiga é válido para o universo gerencial. Para fortalecermos nossos níveis de resiliência precisamos, antes de tudo, compreender nosso perfil de liderança. É importante ter claro que estar aberto a mudanças é tão fundamental quanto nosso movimento inicial de autoanálise.

2 – Construa uma “cultura emocional” positiva na organização. Um estudo divulgado pela Harvard Business Review apontou que a cultura emocional de uma empresa tem influência direta em questões relevantes. Elas vão da satisfação dos colaboradores ao desempenho financeiro geral. Quando pensamos no fortalecimento dos níveis de resiliência, é essencial investir em políticas e práticas de gestão que garantam uma cultura emocional positiva na empresa.

3 – Tanto os sucessos quanto as falhas são fontes ricas de aprendizado. Na vida profissional lidamos, inevitavelmente, com obstáculos e até frustrações. É crucial transformar tais situações em motivação para que nos tornemos melhores líderes e melhores seres humanos. Só com tal senso de maturidade poderemos enfrentar os desafios intrínsecos a qualquer jornada de sucesso.

4 – Humildade em aprender com o outro. Buscar fortalecimento emocional em nossos colegas, amigos e família é desejável e um sinal de humildade. Só evoluímos de verdade quando convivemos de forma harmoniosa e aberta com os demais. Encare os diálogos e a convivência – mesmo com pessoas consideradas difíceis – como uma fonte de aprendizado. Busque ampliar seus skills emocionais interagindo com indivíduos de diferentes culturas e backgrounds. Acima de tudo, saiba ouvir.

5 – Seja um inconformado nato. O conformismo é o oposto da resiliência. Sobretudo quando ficamos estagnados em virtude do medo das mudanças ou desafios. Não tenha medo de buscar o novo, de implementar ideias com frescor. Verdadeiros líderes são naturalmente inconformados. Estão sempre em busca de algo que possa melhorar suas empresas e contribuir para a sociedade.

O mundo pós Covid-19

Este é o início de uma revolução nos meios de pagamento?

por Paula Paschoal, diretora sênior do PayPal Brasil

Os impactos desta pandemia são profundos, e as pessoas que podem estão abrigadas (quase entocadas) em casa, não saem para quase nada. Trata-se de um cenário que vem mudando a maneira como trabalhamos e vivemos. Isso é perceptível no aumento recente do uso de tudo o que é digital. No mundo estamos assistindo a um crescimento expressivo da utilização de serviços online e de internet de maneira geral. As pessoas precisam que empresas como a nossa estejam lá para elas – e sabemos da responsabilidade que é poder ajudá-las durante esse período sem precedentes, oferecendo segurança e conveniência às transações eletrônicas.

Nas últimas semanas, o número de novos clientes do PayPal aumentou enormemente no mundo inteiro (foram mais de 20 milhões somente no primeiro trimestre de 2020). São consumidores que estão criando sua carteira digital para comprar online, já que ir até uma loja, atualmente, representa um risco desnecessário. O mesmo acontece do lado de quem vende. Atingimos 25 milhões de contas comerciais em abril, empreendedores e empreendedoras que estão buscando formas mais tecnológicas e, portanto, mais seguras, para enfrentar a Covid-19 no mundo todo.

Tendo esse cenário como base, creio que, no Brasil, devemos ver, sim, um aumento da demanda por pagamentos eletrônicos também no pós-pandemia. E isso faz todo o sentido, já que, além dos cuidados que a população passará a ter no contato pessoal, os brasileiros são, desde sempre, entusiastas da tecnologia, aderem rapidamente a novas formas de se fazer as coisas no ambiente digital.

Não tenho receio em dizer que estamos assistindo ao nascimento de uma nova era de pagamentos digitais, e não vamos voltar ao que era antes. Não vamos mais usar tanto dinheiro. Aliás, acho que todos estaremos mais cientes sobre questões de higiene daqui para frente. Costumo dizer que, em uma economia sem dinheiro, trata-se menos do que sentiremos falta do que das vantagens que obteremos. Por isso, também acredito que veremos os QR Codes e demais tecnologias contactless se tornarem mais presentes nas lojas – porque já vinha acontecendo em diversos países, antes mesmo da crise do coronavírus. Só que, agora, essa mudança se dará com uma cadência muito maior.

Quanto mais pudermos digitalizar a economia, mais inclusivos seremos. E precisamos ter certeza de que isso acontecerá, porque os pagamentos digitais são muito mais eficientes. Além disso, custam muito menos, ou seja, representam mais dinheiro na mão daqueles que mais precisam. Ao virtualizar os processos transacionais, podemos tornar os serviços financeiros mais acessíveis, convenientes e seguros, e trazer, pela primeira vez, uma fatia gigantesca da população para a economia global.

Em um país como o Brasil, no qual ainda temos mais de 60 milhões de pessoas desbancarizadas, espero que este triste momento de crise pelo menos se transforme em um ponto de inflexão, porque os benefícios dessa inclusão (e sabemos disso por experiência empírica) serão enormes para toda a sociedade.

O seu legado

Pense em projetos sociais para trabalhar após a sua carreira executiva

Por João Marcio Souza, CEO da Talenses Executive

É certo que perante um cenário de crise como o que vivemos com a COVID-19 planejar o futuro se torna algo mais difícil. No entanto, agora mais do que antes, cada ação que você projeta ou executa, é ainda mais significativa. E o planejamento da aposentadoria para a alta liderança pode começar a ser mais presente neste momento para uns, ou surgir para outros.

A maioria já tem planos muito claros de como aproveitar e continuar contribuindo com a sociedade após deixar o trabalho, e engana-se quem pensa que os sonhos destes executivos se limitam ao do negócio próprio ou ao “dolce far niente”, de fato pausar e relaxar. Uma pesquisa realizada pela Talenses Executive apontou que a maioria dos executivos cogita o trabalho social como forma de viver uma aposentadoria ativa.

De acordo com o estudo realizado com 130 profissionais do C-Level, entre diretores, vice-presidentes e presidentes de corporações, 76% dos executivos demonstraram interesse em desenvolver ou participar de atividades relacionadas a projetos sociais após o encerramento da carreira corporativa. Entre os que têm interesse no trabalho social, 42,7% enxergam a prática como uma forma de contribuir com a sociedade, retribuindo as oportunidades que lhes foram dadas ao longo da vida. A maioria, 66%, também entende que os projetos voltados à educação seriam os mais adequados para essa etapa da vida.

A sensação de dever cumprido costuma vir acompanhada de um sentimento de retribuição, e é assim que grande parte dos executivos de alto escalão se sentem ao encerrar uma carreira. Soma-se a este sentimento uma responsabilidade social que muitas vezes já faz parte da vida pessoal deste profissional, e observamos estes projetos se intensificando, prosperando e fazendo a diferença para a sociedade.

Com os brasileiros vivendo mais, na última década vivenciamos um número cada vez maior de aposentados plenamente ativos e cheios de planos. Com saúde, jovialidade, boas condições financeiras e tempo de sobra, podendo assim, o momento da aposentaria de um executivo C- Level ser o ideal para resgatar sonhos antigos que haviam sido atropelados pela carreira. É a hora em que muitos profissionais param e refletem sobre as mudanças que gostariam de ver no mundo, sobre as oportunidades que poderiam ter tido no início da carreira, as dificuldades do caminho e percebem que sua experiência pode contribuir para a sociedade.

Anos e anos de intensa atividade profissional e uma rotina acelerada não muda facilmente, e o lado emocional pode pesar assim que a euforia de um período de relaxamento e diversão dá lugar a sensação de tédio e falta de produtividade. Ocupar a mente e o tempo com algo que beneficie um grupo de pessoas é gratificante para quem faz e inspirador para os executivos que ainda estão longe de se aposentar.

Seja qual for o seu projeto de vida para o período de aposentadoria, o importante é que você tenha um. E principalmente, que esteja preparado para o mundo que virá após esse grande momento de incerteza, pois as suas decisões podem contribuir com um mundo próspero e esperançoso. Adjetivos que em tempos sombrios como este que estamos vivendo fazem mais sentido do que nunca.

O mundo depois da tempestade

O mundo depois da tempestade

Quando a economia voltar a funcionar, o mercado de luxo pode ter menos viagens e mais consumo interno no Brasil

Por Freddy Rabbat

A crise devido ao novo coronavírus é um desafio para todos. Trata-se de uma guerra contra um inimigo invisível, diferente de tudo o que já vivemos. A perspectiva de ficarmos fechados por muito tempo é ruim e assustadora para todos que trabalham. Até porque uma depressão mundial pode estar batendo a nossa porta.

Quando o mercado voltar, isso tudo vai trazer bastante insegurança, especialmente para quem está desempregado e sem perspectiva de retorno ao mercado de trabalho. Existem várias teorias para o dia em que economia for religada. Alguns mercados, como os que têm mais influência de turismo, irão sofrer muito. Porque as viagens devem demorar muito a serem retomadas. Até porque as pessoas terão ainda muito receio de viajar.

Por outro lado, as economias que exportavam turistas podem ter algum ganho. Já temos dados da China, onde o mercado está voltando. Nesse ponto, o Brasil é muito semelhante ao gigante asiático. Nosso país é um grande exportador de consumidores. Para cada relógio vendido aqui, muitos brasileiros compravam peças fora. E isso vale para todo o mercado de luxo.

No passado, as pessoas consideravam uma vantagem comprar no exterior. Isso é algo que não existe mais. As marcas que faziam isso foram embora do Brasil e aquelas que sobraram conseguem fazer um preço igual ou até inferior ao que é praticado em outros mercados. O cliente comprava no exterior também por hábito.

Por conta disso, podemos prever esse fortalecimento do mercado interno, porque teremos uma retenção do consumo feito em viagens. Estou me referindo ao consumidor muito habituado a frequentar shoppings em outros países. Certamente, ele irá parar de viajar ou irá reduzir as suas saídas do país. Nesse novo cenário, o mundo vai estar mais fechado e cauteloso por essas questões de contágio.

Esse novo ambiente pode trazer ao Brasil uma mudança comportamental. Os consumidores irão adquirir roupas, relógios e joias aqui mesmo. Talvez, isso represente um considerável aumento de vendas para os lojistas locais. Países que eram tradicionais receptores desses turistas vão sofrer muito. Estou falando de países do Caribe e cidades como Paris, Nova York e Miami. Esses viajantes devem passar a comprar aqui no Brasil. Nosso país tem uma boa estrutura de venda para atender a esse público com shoppings de alto padrão e outlets.

Apesar dessa perspectiva, o mercado de luxo global faz uma previsão de queda de 25% neste ano. Particularmente, estimo que possa ser ainda maior. Em alguns segmentos, talvez com um percentual menos drástico. As pessoas estarão muito mais preocupadas com a recuperação da sua capacidade financeira, do seu trabalho, do que qualquer outra coisa nesse primeiro momento.

É possível avaliar alguns dados, como nas curvas de despesas em vestuário. Elas praticamente zeraram. Nesse setor, temos um percentual de menos de 15% de gasto na comparação com o mesmo período, no ano passado, no Brasil. São dados de administradoras de cartão de crédito que mostram o que pode acontecer no nosso mercado. Não se espera crescimento desse segmento. Tudo está muito exprimido.

O mercado de luxo não está sozinho nesse cenário nebuloso. Supermercados e farmácias tiveram uma movimentação não tão grande. Acreditava-se que iriam bombar. Mas isso foi só no início. As pessoas partiram para fazer estoques para se proteger. Achavam que iria faltar comida. Por enquanto, não vai faltar comida. A preocupação é faltar dinheiro. Então a venda dos supermercados está um pouco acima do que o normal. Mas nenhum absurdo. Das farmácias, já vem caindo. Está abaixo do mesmo período do ano passado. Postos de gasolina, por exemplo, já estão com vendas a menos da metade do ano passado.

Após o achatamento da curva de infectados da Covid-19, teremos o grande desafio de recuperação da economia. Os países vão precisar de muita criatividade para retomar o caminho do progresso. O brasileiro é muito criativo. Pensar nisso é um alento. E nosso mercado interno pode surpreender.

A dose do remédio

Nesta pandemia, temos de cuidar também das vítimas invisíveis: os desempregados

Por Flávio Rocha

É preciso deixar claro. A moeda dessa crise do coronavírus são vidas. E elas não são negociáveis. A questão que deve ser colocada é que existem vítimas invisíveis nessa pandemia. Além das pessoas que perderam a vida devido ao Covid-19, estão os desempregados, desalentados e aqueles que podem ser vitimados pela violência urbana.

Aquele empresário que está levantando o questionamento do caos econômico e social não deve ser visto como um vilão que só quer saber de dinheiro. Está se colocando um falso dilema, como se a humanidade estivesse dividida por aqueles de bom coração (que estão sofrendo com as vidas) e aqueles que falam em grana, ou economia.

Não é disso que se trata. Estamos falando, sim, das vidas visíveis, vitimadas por essa pandemia terrível. Precisamos colocar numa tela de radar uma infinidade de outras vítimas, as invisíveis. Porque desalento, desemprego, caos social e violência urbana também matam.

A comparação que cabe fazer é com um médico tratando um paciente de câncer. Ele tem de calcular a dosagem da sua quimioterapia. É possível, sim, acabar com o câncer. Pode-se aumentar a dose da medicação e destruir as células cancerígenas. O desafio, eis a questão, está em manter o paciente vivo. Pensando num paralelo com o Covod-19, é lógico que um isolamento total da população, por seis meses – num exemplo mais absurdo –, iria minimizar essas trágicas mortes por coronavírus. Porém, o dano colateral seria catastrófico.

Vejam o caso dos Estados Unidos. A maior economia do mundo teve um recorde de pedidos de seguro-desemprego. Chegou a ter 3,28 milhões de solicitações, contra 282 mil em dias anteriores à crise. O recorde anterior foi de 695 mil em 1982, de acordo com números do Departamento de Trabalho do EUA. A estimativa da consultoria Oxford Economics é de que o percentual de desempregados alcance os 20%.

O que pode acontecer no Brasil? É possível imaginar um desemprego muito maior por aqui. Isso mata em massa. Isso desorganiza a economia – e mata de fome. Não adianta a boa intenção de imprimir dinheiro se as gôndolas estiverem vazias, porque se desorganizaram as cadeias produtivas. O nome disso é hiperinflação.

É preciso observar a questão de forma sistêmica. Ao tirar a economia da tomada, podemos gerar muito mais vítimas já neste ano. Pode ser pior para essas vítimas invisíveis do que até os piores cenários para aqueles que sofreram com o coronavírus. Isto sem falar de uma recessão sem precedentes.

Não temos esse histórico. O que acontece quando você tira a economia da tomada? É como o forno de uma siderúrgica. É isso que torna de difícil execução essa prática do confinamento absoluto.

Não sabemos como as cadeias produtivas irão voltar a se organizar. O drama mais imediato é o que está acontecendo hoje. É a fome de quem está vendendo o almoço para comprar o jantar. Estou falando daquela pessoa que vive numa casa humilde e viu acabar todo o seu estoque de alimentos.

As empresas mais estruturadas conseguem se manter. No Grupo Guararapes, do qual a Riachuelo faz parte, estudamos todos os cenários de stress imagináveis, mesmo com a interrupção de 100% do fluxo de vendas. Estamos lidando também com a interrupção de pagamentos do cartão.

Claro, o foco número 1 é preservar o nosso bem mais preciso: o bem-estar do nosso time. Suspendemos as atividades em lojas. Mantivemos, no entanto, uma pequena unidade para produzir máscaras e aventais hospitalares doados aos hospitais. A missão agora também é proteger o caixa. Só vamos voltar a abrir quando tivermos segurança de que tudo isso poderá ser feito.

Nunca vimos um impacto dessa magnitude. Uma semana significa 2% de um ano. Cinco semanas são 10%. O que fazer? É possível incrementar a cultura do digital. Pode-se pensar em regimes diferentes em determinadas regiões do Brasil. Existem lugares com as suas peculiaridades.

Mas sou um otimista incorrigível. Varejista pessimista deveria procurar outra profissão. Nossa ferramenta de trabalho é o otimismo. Vamos sair mais fortes e maduros dessa crise. Não podemos ter uma visão estreita. Temos de preservar todas as vidas (e seus empregos). Não podemos deixar o remédio matar o paciente.

O século asiático

A crise do coronavírus torna ainda mais evidente a ascensão e poderio dos países orientais

Por Lawrence Pih

Muitos amigos têm me perguntado qual é minha opinião sobre a atual crise sem precedentes. Aqui estão alguns dos meus pensamentos. Não são, veja bem, verdades absolutas. Posso estar errado. Mas é o que penso.

Antes desta crise, vimos uma dissociação gradual das duas maiores economias do mundo, os EUA e a China. A rivalidade entre estes países teve uma virada mais ameaçadora, tanto econômica quanto geopoliticamente. As guerras comerciais e tecnológicas começaram a ocorrer não apenas entre eles, mas também entre os EUA e as principais economias do planeta, particularmente na frente comercial. O mundo já estava em um modo de confronto, antes do coronavírus. Eram as democracias liberais ocidentais desafiando modelos de governo autocrático. Era o laissez-faire versus governos centralizados. Eram os governos liberais contra aqueles com grande presença do Estado.

Todas as principais economias vinham surfando uma onda de bolhas de ativos. A maioria desses governos estava sobrecarregada fiscalmente. Os bancos centrais com poucas ferramentas e uma dívida massiva do setor privado apenas tornaram tais economias mais frágeis. Este era o mundo antes da crise atual.

E então veio a pandemia de Covid-19. Seu ritmo de contágio é assustador e sem a perspectiva de cura ou vacina em curto prazo. Alguns governos optaram por medidas draconianas de bloqueio, enquanto outros escolheram ações limitadas e menos restritivas. As democracias claramente têm mais dificuldade em implementar medidas draconianas. À medida que a pandemia piorava, esses governos democráticos não viram outra alternativa senão emular governos autoritários. Mas aqui está o problema: as pessoas que vivem em democracias liberais têm dificuldade em se adaptar a essas medidas de limitação da liberdade. Além disso, seus governos se preocupam com o custo econômico de tais ações. Aqui cabem duas perguntas. A primeira: a abordagem extremamente restritiva reduzirá a dor econômica e, como resultado, produzirá resultados econômicos mais favoráveis ​​a longo prazo e também salvará mais vidas? A segunda: ou uma abordagem mais moderada, apesar de colocar mais vidas em risco, produzirá ao final melhores resultados?

Quanto aos estímulos fiscais e monetários, eu, pessoalmente, preferiria favorecer os necessitados em vez dos negócios. Se focarmos no fato de que 40% da população dos EUA, o país mais rico do mundo, não têm uma reserva de U$ 500 para enfrentar uma emergência, o que dizer das nações países menos desenvolvidas? A verdadeira desigualdade de renda nos EUA é flagrante. E, vale dizer, isso também ocorre em muitos outros países desenvolvidos. Enfim, todos os esforços de socorro devem ter os necessitados como foco principal.

O que prevejo é o desenvolvimento de medicamentos que ajudarão o processo de cura e, posteriormente, uma vacina contra o vírus. Mas estamos lidando principalmente com uma infraestrutura de saúde mal preparada para enfrentar esses desafios. Investimos trilhões de dólares em armas e guerras, em superfluidades. Impomos enormes custos com negligência ambiental, desperdiçamos trilhões de dólares em ineficiências dos governos e favorecemos sistematicamente o 1% sobre os 99%.

Poderíamos estar mais bem preparados para esta crise, que, de resto, era previsível? Acredito que sim. Mas escolhemos não nos preparar. Esta crise se dissipará como todas as crises, mas deixará um custo pesado em muitas economias. As economias desenvolvidas ocidentais sobrecarregadas serão severamente atingidas.

Enquanto isso, os ex-tigres asiáticos, agora unidos pela gigantesca economia chinesa, representarão um novo e assustador desafio ao modelo ocidental. O Japão provavelmente optará por se conectar com seus vizinhos e, também com a Austrália e a Nova Zelândia. É questão de tempo.

Dois terços dos habitantes da Terra vivem na Ásia. A Índia terá a maior população até 2027 e será uma fonte formidável de oferta de mão-de-obra. Em sua luta por um melhor padrão de vida, os asiáticos estão prontos para conviver com enormes sacrifícios que populações muito mais ricas de países desenvolvidos não aceitam. As atuais políticas de imigração dos EUA são claramente xenófobas, o mesmo valendo, em menor grau, para os países europeus desenvolvidos. Isso levará a um movimento de fuga reversa do fluxo cerebral.

Hoje está claro que EUA e China estão lutando pela supremacia tecnológica, sem mencionar a geopolítica. As políticas recentes norte-americanas revelam profunda preocupação com o avanço asiático. Não era para menos. Os estudos STEM – sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática – estão avançando na Ásia, principalmente na China e também na Índia. Do ponto de vista demográfico, os países ocidentais desenvolvidos também estão ficando para trás. As economias não podem crescer com o envelhecimento e o baixo crescimento populacional. Se a lacuna deixar de ser preenchida pela imigração, as perspectivas de crescimento serão pouco alentadoras. Os países ocidentais enfrentarão desafios internos à medida que grande parte da população se sentir deixada de fora e que o modelo econômico existente estiver contra eles.

Veremos o confronto entre os que não têm e os que têm. Assistiremos ao embate entre socialistas contra capitalistas. Também veremos uma tendência em direção a governos mais autoritários no Ocidente, à medida que os fracassos em lidar com esta crise épica trouxerem à luz os benefícios de governos mais centralizados. A ironia é que os setores progressistas da sociedade querem mais participação do Estado, mas sem invadir sua liberdade. Isso parece mutuamente exclusivo.

Os conservadores querem menos participação do Estado governo, mas, paradoxalmente, clamam por um governo mais autoritário que atenda aos que têm. Estamos testemunhando um atoleiro ideológico. Nesse levante econômico, social, político e ideológico, podem surgir imprevistos.

Para os EUA, é sempre politicamente conveniente encontrar um inimigo estrangeiro quando dificuldades internas afloram. Nesse sentido, há algum bode expiatório melhor existe do que uma China cada vez mais forte e assertiva?

O confronto geralmente surge do erro de cálculo e a história está repleta de exemplos. Confronto ou não, é improvável que este não seja o século asiático. Minha esperança é que possamos navegar pacificamente por esses tempos difíceis. Devemos torcer para que os líderes se provem mais estadistas do que políticos.

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